



O Festival Lendas do Arpoador foi um evento épico, a coisa mais importante para a memória do surf carioca já realizado.


OS EVENTOS DA GURIZADA
O veraneio se resumia em surfar e se preparar para o surf.
O surf cresceu rápido na Guarita, tinha um molhe de pedras separando Itapeva, e ainda não existia o leash, então o evento era assistir um surfista cair e perder a prancha que vinha arrastando tudo e todos que estivessem pela frente.
O pessoal hoje não tem noção disso, exigia saber nadar bem, porque sempre voltavam nadando para a praia, não havia outro jeito, era normal cair, ninguém tinha controle daquilo e as pranchas deixavam a desejar, afinal, estavam todos aprendendo.
Este é um dos fatos que marcaram aquele início, pranchas indo parar nas famosas pedras dos molhes e quebrar, consequentemente era preciso remendá-las.
O melhor do surf sempre era na parte da manhã, e a tarde quando entrava o nordestão de verão que tornava o surf impraticável, ia todo mundo à ferragem comprar tecido, resina e cobalto, logo depois iam parar na garagem para consertar as pranchas, tudo era um programão para a gurizada, já fazia parte do preparo como um ritual.
Eles mesmos remendavam, sempre tinha o amigo habilidoso, e colocavam pigmento para o remendo não ficar feio, tinha remendo de 20/30 centímetros, igual a um tubarão mordendo aquelas pranchas. E assim os dias de verão se passavam em função do antes e depois do surf, era uma turma que surfava e iam juntos em tudo.
Outra atividade dessa turminha era preparar a parafina, eles compravam aqueles blocos, derretiam o diabo da parafina quente e depois pincelavam a prancha, e aquilo deixava uma camada que agarrava bem, até que ficava bom, mas era um crime. Só existia parafina e vela, mas vela não funcionava então, o jeito era improvisar com o que tinha.
O APOIO DAS MÃES
Torres era uma praia relativamente pequena nos anos 60, as mães eram amigas e se revezavam para cuidar e dar carona para essa gurizada, a Luiza, mãe do Alemão Caio, vinha num Jipão e levava a turma, a Érica, mãe do André, a Marília, mãe do Massa, e outras mães também participavam dessa rotina, e ninguém queria sair da praia, às vezes passavam o dia inteiro surfando, o maior limitador era o sol do meio dia, obrigava o pessoal a ir embora, mas voltavam depois das quatro, e essas mães tinham o papel fundamental de levar e trazer, foram grandes incentivadoras, e também porque elas gostavam daquele movimento todo de pegar uma prainha.
Alguns nomes da gurizada
Os irmãos Massa, Pingo e Leonel Obino, o Ziza e o Marcelo Mottin “Negão”, o Carlos, o Kito que era um pouco menor, o Claudio e o Cristiano Johannpeter, o Dado Bier que era um pouco menor, o Titino. Tem muita gente...
Legendas para as fotos
Foto: Massa na Guarita de macacão quem quem e pranchinha forrada com tecido, os dois tinham a função de proteger a barriga das assaduras
Foto: turminha em Torres – Muito pioneiras, a coragem das mães deixarem esses piazitos surfarem naquela época.
A CULTURA SURF SURGE NO SUL DO BRASIL
A BUSCA POR CONHECIMENTO
As primeiras pranchas que o Mário Pettini fez em 1963 para os irmãos Johannpeter eram uns monstros, pesadíssimos, sem shape, mas foi um negócio totalmente pioneiro, que resultou em uma busca ávida para entender como se fazia surf e onde encontrar equipamentos.
E assim começaram as viagens atrás de informações sobre o esporte que recém surgia.
RIO DE JANEIRO
Naqueles tempos era hábito gaúcho viajar no inverno para o Rio de Janeiro, e foi numa destas viagens que Klaus e Jorge Gerdau Johannpeter foram conhecer o que estava acontecendo por lá, onde também estava tudo começando. Encontraram alguns surfistas na praia do Arpoador e deles compraram pranchões de fibra de vidro, trazendo a novidade para Torres e iniciando assim a atividade do surf entre amigos e familiares.
Dos primeiros jovens que aprenderam a surfar com os irmãos pioneiros, foram Marco Antonio Silva, Roberto Bins e Martin Streibel, estes meninos são da primeira geração de surfistas do Rio Grande do Sul, que deram, nos primeiros campeonatos iniciados em 1968, shows de habilidade e beleza.
Marco Antonio Silva vence o Iº Campeonato Gaúcho em 1968, e Roberto Bins Júnior é o segundo campeão do estado em 1969, com Martin Streibel em segundo lugar neste mesmo ano.
Paralelamente, Fernando Sefton, que trabalhava no eixo Rio- São Paulo, visita o Arpoador fazendo amizade com os pioneiros do surf local, trazendo para a praia de Atlântida uma “Madeirite”, onde inicia os filhos Paulo, Ricardo e Betty a praticar o esporte, estes se tornaram grandes campeões de surf a partir de 1969, quando Betty recebe o título de campeã, sendo a primeira mulher a vencer um campeonato no Rio Grande do Sul, e no próximo ano desponta o jovem Paulo Sefton, que se consagra campeão gaúcho em 1970,71/72 e se torna pentacampeão em 1980, vindo a ter uma carreira brilhante de vitórias junto com seu irmão Ricardo.
Enquanto isso, Mário dá continuidade à fabricação das pranchas e experimenta com seus filhos Roberto, Luiz e Paulo as “Pettini” no mar de Atlântida.
Dai para frente nada mais seria como antes, o surf viria a ser a grande diversão familiar nos próximos verões, atraindo olhares interessados, novos adeptos e definitivamente mudando o conceito de pegar praia por todo o estado. A Cultura Surf surgia no sul do Brasil.
Mário foi o primeiro fabricante de pranchas do Sul, e acaba de nos deixar, no dia 29 de março.
esta é uma homengem póstuma a ele.
MARIO PETTINI
PIONEIRO DA INDÚSTRIA DE PRANCHAS NO SUL
Mario Pettini nasceu em 1926, e no domingo de 29 de março de 2009, se despediu da aventura de viver deixando saudades, não apenas pela ausência, mas pelo que representou como ser humano e como exemplo de homem em busca constante do saber.
Tive o privilégio de conhecê-lo, e às vezes que conversamos vi nele a importância do aprender, de estar sempre buscando, era uma pessoa que prendia as atenções e tinha prazer no que fazia.
Marcamos de nos encontrar no dia 30 de março, quando ele me entregaria um texto sobre algumas passagens da sua vida relacionadas à origem do surf no sul, o encontro não chegou a acontecer, pois no domingo ele já havia partido. Foi por intermédio de seu neto Felipe Pettini que recebi a notícia. Tive a sensação de tristeza por não ter me despedido dele, mas ao mesmo tempo senti uma alegria por ter tido a oportunidade de compartilhar um pouco da sua história. O que ele escreveu caiu como um presente para todos os apaixonados pela história do surf.
O MARCO INICIAL DO SURF NO SUL
No fim da década de cinquenta, Mario Pettini estava estabelecido em Porto Alegre, onde tabricava pequenos barcos em madeira compensada que revestia com tecido de vidro e resina epoxy. Tanto a resina como o tecido de vidro era Ciba. Desse relacionamento surgiram convites para assistir seminários sobre o uso de plásticos reforçados na fabricação de modelos de fundição e ferramentas de estamparia, o que abriu um leque de conhecimentos.
Em 1962, o chefe da divisão de plásticos da Ciba no Brasil, o chamou para fazer um estágio no laboratório de desenvolvimento de produtos na Basiléia, onde aprendeu muito.
Logo após a volta da Itália, Mário foi procurado por Jorge Gerdau Johannpeter, sabendo de sua experiência com resina, com a pergunta:
Meus irmãos e eu acabamos e experimentar umas pranchas havaianas, tirei fotos para referência, será que poderias fazer igual?
Mario acabou concordando e desta tentativa surgiram as primeiras pranchas de fibra de vidro feitas pelas bandas do sul.
Na verdade as pranchas eram toscas, mal acabadas, grandes e pesadas, mas refletiam o pouco que na época se sabia de tecnologia de fabricação.
AS PRIMEIRAS PRANCHAS FEITAS POR ESTAS BANDAS
De posse das fotos Mario foi à oficina de modelos para fundição do Fileno Vizentin, pedir-lhe se poderia fazer um protótipo. Ele pensou, coçou a cabeça, e terminou concordando.
O modelo, feito em cedro, ficou lindo. Se seu peso não tivesse ficado alto, teria sido usado como prancha, tinha um acabamento perfeito, madeira de primeira.
Deste modelo fizeram um molde em fibra de vidro, na verdade dois moldes: um para o dorso e outro para o ventre. Nestes dois moldes fabricaram as cascas que seriam as paredes externas, e no espaço interno injetaram a espuma de poliuretano.
A primeira peça foi perdida. A experiência em lidar com a espuma era pouca, a pressão dela contra o molde foi muito grande, os grampos de fechamento não resistiram à força de expansão da espuma, da qual a maior parte jorrou para fora do molde. A partir deste experimento, reduziram a quantidade de material, reforçaram os grampos e daí para diante elas foram ficando pouco a pouco melhores.
Fez pranchas para seus filhos Paulo e Roberto, o Fernando Sefton surfou também com pranchas Pettini. Esporadicamente vendeu algumas pranchas, mas na verdade a qualidade deixava a desejar
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DEWER WEBER
Assim foi até novembro de 1968, quando Mario, que na época era piloto, foi buscar um avião nos Estados Unidos, lá acontecia a Feira Mundial de Plásticos em Chicago. Nesta feira conheceu uma firma da qual terminou se tornando representante para o Brasil. O Dono, porém disse que só daria a representação se, ao terminar a feira, ele visitasse sua fábrica em Los Angeles. Concordou, mas perguntou se ele conhecia um fabricante de pranchas de surf para que pudesse visitar e ver como eram feitas.
A resposta foi positiva, disse que conhecia o Dewer Weber. Assim conseguiu passar um dia em sua fábrica. Dele comprou uma prancha que terminou servindo de modelo para as demais que passou a fazer. Diga-se de passagem, que Dewer é considerado até hoje um dos grandes da história mundial do surf.
Nesta altura da história as pranchas já tinham baixado de tamanho. A fábrica de pranchas Pettini foi descontinuada.
O imposto de consumo passou a taxá-las como barcos – e seu preço tornou-se proibitivo.
Os fabricantes de fundo de quintal passaram a tomar conta do mercado.
Mario veraneava em Atlântida, nunca conseguiu surfar bem, o que o motivou a mudar de esporte, o filho Paulo também não quis continuar, mas o filho Roberto e mais tarde o caçula Luiz continuaram surfando por anos e até hoje a família mantém a tradição do surf com os netos Felipe, Marcus, Ricardo, Rodrigo e Antonio Pettini.