



O Festival Lendas do Arpoador foi um evento épico, a coisa mais importante para a memória do surf carioca já realizado.









campeonatos dos anos 60.Tem um monte de gente que foi esquecida, gostaria de lembrar de todos, mas não vai dar.





OS EVENTOS DA GURIZADA
O veraneio se resumia em surfar e se preparar para o surf.

O surf cresceu rápido na Guarita, tinha um molhe de pedras separando Itapeva, e ainda não existia o leash, então o evento era assistir um surfista cair e perder a prancha que vinha arrastando tudo e todos que estivessem pela frente.
O pessoal hoje não tem noção disso, exigia saber nadar bem, porque sempre voltavam nadando para a praia, não havia outro jeito, era normal cair, ninguém tinha controle daquilo e as pranchas deixavam a desejar, afinal, estavam todos aprendendo.

Este é um dos fatos que marcaram aquele início, pranchas indo parar nas famosas pedras dos molhes e quebrar, consequentemente era preciso remendá-las.
O melhor do surf sempre era na parte da manhã, e a tarde quando entrava o nordestão de verão que tornava o surf impraticável, ia todo mundo à ferragem comprar tecido, resina e cobalto, logo depois iam parar na garagem para consertar as pranchas, tudo era um programão para a gurizada, já fazia parte do preparo como um ritual.
Eles mesmos remendavam, sempre tinha o amigo habilidoso, e colocavam pigmento para o remendo não ficar feio, tinha remendo de 20/30 centímetros, igual a um tubarão mordendo aquelas pranchas. E assim os dias de verão se passavam em função do antes e depois do surf, era uma turma que surfava e iam juntos em tudo.
Outra atividade dessa turminha era preparar a parafina, eles compravam aqueles blocos, derretiam o diabo da parafina quente e depois pincelavam a prancha, e aquilo deixava uma camada que agarrava bem, até que ficava bom, mas era um crime. Só existia parafina e vela, mas vela não funcionava então, o jeito era improvisar com o que tinha.
O APOIO DAS MÃES
Torres era uma praia relativamente pequena nos anos 60, as mães eram amigas e se revezavam para cuidar e dar carona para essa gurizada, a Luiza, mãe do Alemão Caio, vinha num Jipão e levava a turma, a Érica, mãe do André, a Marília, mãe do Massa, e outras mães também participavam dessa rotina, e ninguém queria sair da praia, às vezes passavam o dia inteiro surfando, o maior limitador era o sol do meio dia, obrigava o pessoal a ir embora, mas voltavam depois das quatro, e essas mães tinham o papel fundamental de levar e trazer, foram grandes incentivadoras, e também porque elas gostavam daquele movimento todo de pegar uma prainha.
Alguns nomes da gurizada
Os irmãos Massa, Pingo e Leonel Obino, o Ziza e o Marcelo Mottin “Negão”, o Carlos, o Kito que era um pouco menor, o Claudio e o Cristiano Johannpeter, o Dado Bier que era um pouco menor, o Titino. Tem muita gente...
Legendas para as fotos
Foto: Massa na Guarita de macacão quem quem e pranchinha forrada com tecido, os dois tinham a função de proteger a barriga das assaduras
Foto: turminha em Torres – Muito pioneiras, a coragem das mães deixarem esses piazitos surfarem naquela época.






A CULTURA SURF SURGE NO SUL DO BRASIL
A BUSCA POR CONHECIMENTO
As primeiras pranchas que o Mário Pettini fez em 1963 para os irmãos Johannpeter eram uns monstros, pesadíssimos, sem shape, mas foi um negócio totalmente pioneiro, que resultou em uma busca ávida para entender como se fazia surf e onde encontrar equipamentos.
E assim começaram as viagens atrás de informações sobre o esporte que recém surgia.
RIO DE JANEIRO
Naqueles tempos era hábito gaúcho viajar no inverno para o Rio de Janeiro, e foi numa destas viagens que Klaus e Jorge Gerdau Johannpeter foram conhecer o que estava acontecendo por lá, onde também estava tudo começando. Encontraram alguns surfistas na praia do Arpoador e deles compraram pranchões de fibra de vidro, trazendo a novidade para Torres e iniciando assim a atividade do surf entre amigos e familiares.
Dos primeiros jovens que aprenderam a surfar com os irmãos pioneiros, foram Marco Antonio Silva, Roberto Bins e Martin Streibel, estes meninos são da primeira geração de surfistas do Rio Grande do Sul, que deram, nos primeiros campeonatos iniciados em 1968, shows de habilidade e beleza.
Marco Antonio Silva vence o Iº Campeonato Gaúcho em 1968, e Roberto Bins Júnior é o segundo campeão do estado em 1969, com Martin Streibel em segundo lugar neste mesmo ano.
Paralelamente, Fernando Sefton, que trabalhava no eixo Rio- São Paulo, visita o Arpoador fazendo amizade com os pioneiros do surf local, trazendo para a praia de Atlântida uma “Madeirite”, onde inicia os filhos Paulo, Ricardo e Betty a praticar o esporte, estes se tornaram grandes campeões de surf a partir de 1969, quando Betty recebe o título de campeã, sendo a primeira mulher a vencer um campeonato no Rio Grande do Sul, e no próximo ano desponta o jovem Paulo Sefton, que se consagra campeão gaúcho em 1970,71/72 e se torna pentacampeão em 1980, vindo a ter uma carreira brilhante de vitórias junto com seu irmão Ricardo.
Enquanto isso, Mário dá continuidade à fabricação das pranchas e experimenta com seus filhos Roberto, Luiz e Paulo as “Pettini” no mar de Atlântida.
Dai para frente nada mais seria como antes, o surf viria a ser a grande diversão familiar nos próximos verões, atraindo olhares interessados, novos adeptos e definitivamente mudando o conceito de pegar praia por todo o estado. A Cultura Surf surgia no sul do Brasil.